Você quer ser um ídolo de milhões?
- Terá sorte se conseguir um emprego nas docas, porque, pelo jeito, você não irá a lugar nenhum. Aqui, na Escola Quarry Bank, você não vai a lugar nenhum.
- O "lugar nenhum" tem muitos gênios, senhor? Porque, então, devo pertencer a esse lugar.
O Garoto de Liverpool começa mostrando a história de um garoto qualquer na Inglaterra. Alguém rebelde, que mora com a tia e vive provocando colegas, fazendo peripécias como tantos e tantos adolescentes. Mas, rapidamente, descobrimos que não se trata de um jovem comum. É o John Lennon. E tampouco vemos um período conhecido da sua vida. A história, aqui, gira em torno do conturbado relacionamento entre John, sua mãe biológica Julia e a tia que o criou, Mimi.
- Ela te machucará, você disso, não é?
- Vou começar uma banda de rock'n'roll. Como Elvis.
A tia de John é uma inglesa típica (seja lá o que isso signifique). Só sei que a mulher é contida, toma chá, gosta de música clássica e lê sem parar. Até o sotaque britânico parece ser mais acentuado. A mãe é sua antítese. Vive uma vida bagunçada. Já foi de diversos homens (um deles o pai de John). Gosta de rock, canta, toca instrumentos (compra um violão e ensina os primeiros acordes para o filho).
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Esse é o John olhando para seu primeiro violão. |
Com as duas descrições fica fácil perceber quem passa a merecer a maior atenção do futuro beatle. Durante boa parte do filme, vemos as reações do trio diante das novas configurações de relações que se abrem. Talvez o filme cometa o pecado de não se aprofundar nos sentimentos de cada um dos três – John, Julia e Mimi. Fica tudo muito marcado: a mãe descolada e doida, a tia antiquada e o garoto rebelde.
- Se vamos fazer isso, deveríamos escrever nossas próprias músicas. Assim não somos processados pelas gravadoras.
- Eu escrevo algumas coisas. Não canções, mais poesia...Sabe, histórias.
- Ponha uma melodia e temos uma canção.
- Você já escreveu alguma?
- Umas duas.
- Como você sabe tanto?
- Você não parece o tipo de cara roqueiro.
- Porque não saio por aí quebrando coisas e agindo como um panaca?
- Sim.
- Não. É a música. É isso aí, é só música. Simples.
Lá pelas tantas, entra na banda incipiente o garoto Paul. E aí temos mais uma situação: o ciúme de John na relação que se estabelece entre o amigo Paul e sua mãe biológica. Mas, o filme também não se aprofunda. E na verdade ficamos sem saber o quanto disso foi verdade e o quanto foi licença poética.
- Você o amou?
- Me matou de susto.
- Lugar certo pra isso. O amou?
- Bem, isso é uma coisa horrível de se dizer.
- Você nunca demonstrou.
- Você que nunca viu.
- Com minha visão, possivelmente. Não vou ficar ressentido com ela, pelo que ela fez em Blackpool.
- Perdoar e esquecer, suponho.
- Esquecer? Eu gostaria. Só que não tem sentido odiar alguém que se ama. Quero dizer, amor de verdade. Tem, Mimi?
John consegue encontrar a paz nos seus sentimentos pela tia e pela mãe. Algo que vivia em conflito dentro dele passa a coexistir, sem maiores traumas. Depois de uma conversa desconcertante entre o trio, as arestas são aparadas. As irmãs conseguem não mais se odiar. John ganha duas mãe. Ocorre que esse momento de vida sem conflitos dura pouco. O garoto de Liverpool perde a mãe biológica. Num só golpe ele sofre pelo que perdeu e volta a dar valor para a tia que sempre o amou.
Não é uma história fácil. Não deve ter sido fácil ser John Lennon.