"Coisas belas
não precisam pedir atenção"
Fosse você um bom ator de
comédias que se mostrou um diretor afiado para satirizar o jeito americano de
fazer filmes, iria tentar algo no complicado terreno dos dramas redentores?
Parece que Ben Stiller topou o desafio. E, de todo, não se saiu mal. Ele dirige
este drama, com toques de humor e aventura, inspirado em um filme de 1947,
chamado O Homem de Oito Vidas.
Ben, além de diretor, é o ator
principal. O personagem que dá nome ao filme. Walter Mitty é um sujeito pra lá
de introspectivo. Tão pra dentro que vive suas maiores aventuras no campo da
imaginação, constantemente fica “fora do ar” imaginando roteiros diferentes dos
reais para alguns momentos da sua vida. Ele trabalha na Life recebendo e
catalogando os milhares de negativos dos fotógrafos parceiros da finada revista
americana. Quando recebe um rolo do lendário fotografo Sean O’Connell (Sean Penn)
ganha junto uma carteira e um bilhete que diz “o negativo número 25 é a minha
melhor fotografia”. Acontece que o tal negativo desaparece e esse é o ponto de
partida que inicia toda a ação do filme.
Walter pode ser qualquer um de
nós. De criança e adolescente cheio de sonhos e roteiros maravilhosos para a
própria vida até um adulto que se deixou levar pelas necessidades que o destino
reservou. Um evento traumático fez com que tudo aquilo que um dia sonhara
ficasse pelo caminho. Tornou-se, então, alguém que vive uma vida fantástica só
que dentro da própria imaginação. A busca pelo negativo se transforma, então,
na busca pela força para realizar aquilo que ele deixou pra trás, e é nessa
jornada que está a ideia central do filme.
Ben é um excelente ator de
comédias e está correto no papel. Poderia ser melhor? Poderia. Talvez se não acumulasse
duas funções teríamos um concorrente aos principais prêmios de 2013. Como é um
filme bastante centrado no personagem principal ficou a sensação que poderíamos
ter outro ator carregando a história. Sean Penn, Kristen Wiig, Shirley
MacLaine, Adam Scott e Patton Oswalt formam um ótimo elenco de apoio, mas o
filme é tão concentrado na figura de Mitty que sobra pouco espaço para alguém
conseguir “roubar a cena”. O roteiro de Steve Conrad (do ótimo À Procura da
Felicidade) está enxuto, mas poderia ter melhores diálogos afinal histórias de
redenção formam um campo farto para frases e lições que dariam belas cenas quando casadas com imagens.
O visual do filme pode não agradar
aos mais tradicionais. A ideia foi trazer um conceito de revista, inserindo
legendas em imagens como se estivéssemos folheando um exemplar da Life. As
cenas das “viagens” fantásticas que acontecem dentro da cabeça de Mitty são
muito bem executadas, com efeitos surpreendentes, como uma perseguição
enlouquecida pelas ruas de Nova York.
A sensação, porém, é de que o
argumento teria se tornado uma obra prima se trabalhado com menos
grandiosidade, algo mais introspectivo. Com menos firulas, menos ação e
melhores diálogos talvez tivéssemos um dos melhores filmes de 2013. Tanto é que
o grande momento acontece dentro de um bar, na quase desabitada Groelândia,
quando Mitty precisa decidir se entra ou não em um helicóptero com um piloto
bêbado. Ao som de Space Oddity de David Bowie, entoada por Kristen em um dueto
virtual com próprio Bowie a cena é o ponto alto dos 114 minutos de projeção.
Sem grandes efeitos, sem legendas nas imagens, sem pedir atenção. Era só
repetir a mesma pegada no resto do filme. Afinal, para transformar uma catarse
humana em filme não é preciso atenção, basta contar a história com
simplicidade.
Para ouvir a trilha sonora do filme é só clicar AQUI.